Quarto, doce quarto

Quando eu era criança sempre quis ter um quarto que fosse minha cara, afinal, é dentro dele que passava - e passo - a maior parte dos meus dias: estudando, lendo, assistindo filmes, jogando vídeo-game, navegando na internet, comendo, bebendo e namorando. Mas eu nunca tinha tido a chance e nem vontade e nem nada para deixar meu quarto com a minha cara. Até a porta do meu antigo armário desabar e minha mãe sair comigo procurando por outro armário. E ai comecei a idealizar tudo o que eu queria: um quarto rosa. Sei, sei que pareceu estranho para quem me conhece. Digamos qua a cor rosa não era uma cor que fazia parte de minha vida até então. Eu sempre que fui a roqueira maluca e destrambelhada da família, de repente estava lá escolhendo tinta, cadeiras, prateleiras e mesa rosa. Fiz tudo sob o olhar desconfiado de meus pais, porque eles simplesmente ficaram com medo de que eu estivesse tendo apenas uma crise cor de rosa e depois enjoase do quarto. E ai seria tarde demais!
Mas, não enjoei.
Hoje ao chegar da faculdade, entrei no meu quarto e observei como ele está lindo! Como ele e eu nos adaptamos bem e como eu me sinto feliz aqui dentro. Meu quarto, onde agora mais do que nunca eu passo dias e dias, é a minha cara! Ele transmite o que sou. Com minhas fotos, miniaturas, meus livros, meu computador e meus filmes. Aqui estou, sentada, após tirar algumas fotos do meu quarto para colocar aqui. E então vou publicar este texto, deitar na minha cama (que hoje não está com lençol rosa, e sim laranja) e assistir um filme...
Porque afinal, estou no lugar onde me sinto feliz: meu quarto!
Oitenta e cinco vezes Dick Hoyt empurrou seu filho deficiente, Rick, por 42 quilômetros em maratonas. Oitenta vezes ele não só empurrou seu filho os 42 quilômetros em uma cadeira de rodas, mas também o rebocou por 4 quilômetros em um barquinho enquanto nadava e pedalou 180 quilômetros com ele sentado em um banco no guidão da bicicleta -- tudo isso em um mesmo dia.
Dick também o levou em corridas de esqui, escalou montanhas com ele às costas e chegou a atravessar os Estados Unidos rebocando-o com uma bicicleta. E o que Rick fez por seu pai? Não muito -- exceto salvar sua vida.
Esta história de amor começou em Winchester, nos EUA, há 43 anos quando Rick foi estrangulado pelo cordão umbilical durante o parto, ficando com uma lesão cerebral e incapacitado de controlar os membros do corpo.
-- Ele irá vegetar pelo resto da vida -- disse o médico para Dick e sua esposa Judy quando Rick tinha nove meses. -- Vocês devem interná-lo em uma instituição.
Mas o casal não acreditou. Eles repararam como os olhos de Rick seguiam os dois pelo quarto. Quando Rick fez 11 anos eles o levaram ao departamento de engenharia da Tufts University e perguntaram se havia algum jeito do garoto se comunicar.
-- Jeito nenhum -- disseram a Dick -- Seu cérebro não tem atividade alguma.
-- Conte uma piada para ele -- Dick desafiou. Eles contaram e Rick riu. Na verdade tinha muita coisa acontecendo no cérebro de Rick.
Usando um computador adaptado para ele poder controlar o cursor tocando com a cabeça um botão no encosto de sua cadeira, Rick finalmente foi capaz de se comunicar. Primeiras palavras? "Go Bruins!", o grito da torcida dos times da Universidade da Califórnia.
Depois que um estudante ficou paralítico em um acidente e a escola decidiu organizar uma corrida para levantar fundos para ele, Rick digitou: "Papai, quero participar".
Isso mesmo. Como poderia Dick, que se considerava a si mesmo um "leitão", que nunca tinha corrido mais que um quilômetro de cada vez, empurrar seu filho por 8 quilômetros? Mesmo assim ele tentou.
-- Daquela vez eu fui o inválido -- lembra Dick -- Fiquei com dores durante duas semanas.
Aquilo mudou a vida de Rick. Ele digitou em seu computador:
-- Papai, quando você corria eu me sentia como se não fosse mais portador de deficiências.
O que Rick disse mudou a vida de Dick. Ele ficou obcecado por dar a Rick essa sensação quantas vezes pudesse. Começou a se dedicar tanto para entrar em forma que ele e Rick estavam prontos para tentar a Maratona de Boston em 1979.
-- Impossível! -- disse um dos organizadores da corrida.
Pai e filho não eram um só corredor e também não se enquadravam na categoria dos corredores em cadeira de rodas. Durante alguns anos Dick e Rick simplesmente entraram na multidão e correram de qualquer jeito. Finalmente encontraram uma forma de entrar oficialmente na corrida: Em 1983 eles correram tanto em outra maratona que seu tempo permitia qualificá-los para participar da maratona de Boston no ano seguinte.
Depois alguém sugeriu que tentassem um Triatlon. Como poderia alguém que nunca soube nadar e não andava de bicicleta desde os seis anos de idade rebocar seu filho de 50 quilos em um triatlon? Mesmo assim Dick tentou.
Hoje ele já participou de 212 triatlons, inclusive quatro cansativos Ironmans de 15 horas no Havaí. Deve ser demais alguém nos seus 25 anos de idade ser ultrapassado por um velho rebocando um adulto em um barquinho, você não acha? Então por que Dick não competia sozinho?
-- De jeito nenhum -- ele diz. Dick faz isso apenas pela sensação que Rick pode ter e demonstrar com seu grande sorriso enquanto correm, nadam e pedalam juntos.
Este ano, aos 65 e 43 anos de idade respectivamente, Dick e Rick completaram a 24a. Maratona de Boston na posição 5.083 entre mais de 20 mil participantes. Seu melhor tempo? Duas horas e 40 minutos em 1992, apenas 35 minutos mais que o recorde mundial que, caso você não saiba, foi batido por um homem que não empurrava ninguém numa cadeira de rodas enquanto corria.
-- Não há dúvida -- digita Dick -- Meu pai é o Pai do Século.
E Dick também ganhou algo com isso. Há dois anos ele teve um leve ataque cardíaco durante uma corrida. Os médicos descobriram que uma de suas artérias estava 95% entupida. Os médicos disseram que se ele não tivesse se dedicado para entrar em forma é provável que já teria morrido uns 15 anos antes. De certa forma Dick e Rick salvaram a vida um do outro.
Rick, que hoje tem seu próprio apartamento (ele recebe cuidados médicos) e trabalha em Boston, e Dick, que se aposentou do exército e mora em Holland, Massachussets, sempre acham um jeito de ficarem juntos. Eles fazem palestras em todo o país e participam de alguma cansativa corrida nos finais de semana.
No próximo Dia dos Pais Rick irá pagar um jantar para seu pai, mas o que ele deseja mesmo poder fazer é um presente que ninguém poderia comprar.
-- Eu gostaria -- digita Rick -- de um dia poder empurrar meu pai na cadeira pelo menos uma vez.
Medo da eternidade Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou: - Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa. - Não acaba nunca, e pronto. - Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta. - Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca. - E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver. - Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários. - Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola. - Acabou-se o docinho. E agora? - Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia. - Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou! - Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá. Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso. Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(Clarice Lispector)
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
A Virtude de não ter preconceito
Ontem estava em visitando alguns blogs quando encontro uma enquete com a seguinte pergunta: "Você tem preconceito?". O impulso era de clicar no "não" e enviar meu inocente voto. Mas cliquei no "sim".
Sei que é horrível admitir que sofro de um mal desses, uma vergonha! Mas é melhor admitir um erro do que mascará-lo. Apesar de ter esse tipo de preconceito não tinha pensado e aceitado isso até ontem. E sábado foi um dia que ele estava na minha pele.
Quem nunca ficou com medo de ver aquela pessoa um pouco mal vestida entrar no ônibus? Quem nunca ficou com medo disso? Quem nunca apertou o passo ou mudou o caminho para não passar perto de um mendigo ou qualquer outra pessoa que você sentiu que poderia ser perigoso? Tudo isso é preconceito. Quando fechamos os vidros dos carros quando vemos alguém se aproximar. Uma vez estavamos indo para a praia quando um homem veio correndo na direção do carro. Fechamos rápidos todos os vidros e meu pai logo acelerou. Depois descobrimos que o homem estava pedindo ajuda porque seu irmão que estava dirigindo havia passado mal dentro do carro e ele não sabia dirigir. Graças a Deus existiam outras pessoas passando pela rua e o ajudaram. Porque se todos fossem como nós? Será que o homem teria morrido? Talvez... e ninguém se sentiria culpado, pois como saber qual ajuda recusada teria sido a crucial para o caso? Hoje pensando naquele dia me lembro da expressão de desespero no rosto de um irmão que procurava ajuda. E fechamos os vidros com medo porque ele estava mal vestido e sujo.
A culpa deste preconceito não é minha nem sua. É dos políticos que deixaram a situação do nosso país chegar no ponto que está. Porque se houvesse segurança, se não houvesse assaltos, não teriamos medo das pessoas.
E é para esse fim que caminha nossa sociedade...

Os 444 anos do Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro continua lindo? Essa é uma frase que já não sei responder. Lindo... claro... visto de cima. Visto de baixo, aos nossos olhos, o Rio hoje são as crianças que ficam nos sinais fazendo de tudo para ganhar um dinheiro; são os assaltantes que vem em suas motos e em um gesto rápido quebram um vidro de carro e levam a bolsa que lá dentro estava; o Rio são os milhares de mendigos jogados nas calçadas assustando ou não os pedestres; o Rio são os lixos das ruas, os milhares de outdoors que causam uma poluição visual, são os esgotos nas praias. O Rio de Janeiro no bairro onde eu moro então... nunca foi lindo. Foi lindo apenas na época do Pan. O Rio de Janeiro dos políticos são a Barra da Tijuca e a Zona Sul. O resto... é o resto. O resto pode ficar sem policiamento, pode ficar sem água e luz. O resto não tem os direitos que os outros bairros da cidade.
O Rio de Janeiro que é divido. Onde as pessoas de diferentes classes não se misturam. Onde o povo rico tem medo das pessoas que não fazem parte do mundo deles. Onde para ir a praia você precisa ficar olhando em volta com medo de levarem suas coisas. Onde ir na padaria pode lhe deixar sem carro. Onde sair depois das 11 da noite pode lhe deixar sem vida.
Parabéns, Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa dos ricos. Porque até os turistas já sabem que essa não é a nossa realidade.
Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil
Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n'alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente
Jardim florido de amor e saudade
Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade
Ninho de sonho e de luz