A Incrível busca por um grampeador.
Simples coisas da vida que se tornam grandes castigos podem acabar com uma felicidade em um sábado. Algo simples, como grampear folhas. Como tudo começou? Vamos desde o início:
Desde Setembro, a professora de Anatomia está passando trabalhos para ajudar na média e também para complementar a carga horária prejudicada por tantos feriados. Pois bem, eu não fiz nenhum deles. Com uma nova chance, ficou combinado com a professora que eu deveria entregar todos os cinco trabalhos hoje, sem nenhuma alteração na nota dos mesmos pelo atraso na entrega. E tinha tudo para ser uma coisa bem feita, já que a aula foi há duas semanas atrás e eu tive um feriadão de seis dias para fazer o maldito. Mas, como eu sou simplesmente eu, deixei todos os trabalhos para fazer - oh - ontem. E então, depois que cheguei do estágio e enrolar por duas horas, sentei na frente do Personal Computer com meus livros de Anatomia e de Biomecânica, cheia de disposição para realizar minhas obrigações acadêmicas. Foram várias horas antes de ir para a faculdade, e depois que cheguei dela também. Por fim, as duas da manhã eu fechei o meu Atlantis e fui dormir.
Sete horas o relógio desperta - maldito! Com o trabalho feito, faltando apenas imprimir, resolvo fazer coisas. Pego meu "Harry Potter e as Relíquias Mortais" e leio até as sete e meia (detalhe: a aula se inicia 8:30). Depois de ler, fui distraidamente tomar banho. Depois vim para o quarto e enquanto eu ligava o pc, me arrumava tranquilamente. Oito horas eu estava lendo meu horóscopo. Oito e dez enviando para mim mesmo o trabalho para poder imprimir no pc do meu pai, porque eu não tenho impressora. Oito e meia estava tomando café da manhã. Oito e cinqüenta fui ligar o computador estranho para imprimir. Ok, o pc tem uns seis ou sete anos, é windows 98 e não tem word atual. E eu não sabia disso. Fiquei desesperada ao saber que não poderia entregar o trabalho com algumas das regras da ABNT. Tudo bem, isso é o de menos. O pior ainda estava por vir: naquele computador, a internet é discada. Só depois de quase quinze minutos é que eu consegui finalmente abrir minha caixa de mensagem para poder imprimir o maldito. Mas o pior ainda estava por vir. Eram nove e dez quando aquele barulho assustador e aquela pequena caixinha cinza do windows surgiu para informar que não era possível abrir o arquivo pois o formato era inválido.
*Pânico*
Olho para o relógio. Não posso deixar de entregar o trabalho, seria o mesmo que assinar minha carta de reprovação. Corro para minha casa, sento no pc, salvo em disquete, corro e finalmente consigo imprimir. Depois, descubro que o texto saiu torto. Imprimo de novo. Corro para o carro. Nove e meia. Putaaqueopariuuu. Nenhum engarrafamento, nenhum sinal fechado.
Nove e trinta e cinco entro na faculdade e vou em todos os locais possíveis a procura de um grampeador. Não é possível que em uma faculdade não tenha um grampeador perdido. Corro para a sala, entro, dou bom dia para a professora e sento em uma mesa afastada de todos. Coloco meu trabalho em cima da perna do cadáver, arrumo as folhas, coloco em ordem. Onde estão os clipeses que guardo? Ah... ficaram no fichário que deixei em casa. A professora desliga o projetor e informa que a aula de hoje seria só teórica. Ou seja, assisti dez minutos de aula. Saio correndo novamente a procura do grampeador. Procuro no anatômico, procuro em salas de aula, procuro na secretária, procuro com inspetores. Ninguém possuía a maldito. Entrego-me por vencida, volto para o laboratório enfestado do cheiro do formol, chego na pequena professora e digo que a parte mais difícil do trabalho foi tentar arrumar um grampeador que não consegui. Eram cinco trabalhos sem grampear. Quarenta folhas que podiam voar e acabar com horas de trabalho. Quarenta folhas que poderiam, sei lá, cair da mão e depois eu ser acusada de entregar trabalho faltando coisas. Nem mencionei o fato de que sou estudante de fisioterapia, e não de educação física como 99,9% da turma e que portanto eu não sabia nada sobre musculação, e muito menos quais as correções que o exercício de flexão do joelho fazia.
No fim, a professora me olha. Abre a bolsa. Pega um pequeno grampeador e prende as minhas folhas.
Filha-de-uma-unha!
Só isso importa.
Hoje pela tarde, depois de passar uma manhã normal e mandar meus primos para a escola, minha vó ligou para minha prima e pediu que ela a levasse ao banco, pois o pagamento da pensão de apenas um salário mínimo foi ontem e ela precisava do dinheiro para pagar as contas que venciam nesta semana.
Minha prima na mesma hora foi a casa da minha tia, onde minha vó passa a maior parte do tempo, e as duas foram ao banco pegar os R$380, para minha vó poder pagar todas as suas contas.
Ao saírem do banco, um rapaz sorriu para elas na porta. Menos de dez minutos depois, este mesmo infeliz assaltava as duas com um revólver e um outro filho da puta ao lado. Alguém, um idiota ordinário, apontou uma arma para minha vó e levou o dinheiro que ela esperou o mês inteiro para receber, seus documentos, cartões, agenda de telefones, fotos e lembranças que dei para ela no domingo quando ela dormiu aqui na minha casa.
Um animal, assaltou minha vó querida e minha prima na porta da casa da minha tia. Um animal que merece morrer por ser quem é, por apontar uma arma para uma pessoa de bem, que nunca fez mal a ninguém, para uma pessoa idosa que precisa do seu único salário para comer, para comprar seus remédios, para sobreviver.
O que merece uma pessoa que faz uma coisa dessas? Na minha opinião, apodrecer na cadeia, junto com outros animais da mesma espécie. E não adianta vir falar que é culpa da sociedade, bla bla bla. Todos temos escolhas, e eles escolheram o pior lado. Cansamos de ver pais de família lutando no sinal para ganhar o suficiente para comprar um pão no final do dia, mas mesmo assim com a sua dignidade.
Enquanto vários idosos são assaltados, eu vejo as notícias da primeira página na internet: "Câmara proíbe exposição com foto de Rogéria nua"; "Vidente prevê vitória da Bolívia sobre a Argentina"; "Flamengo luta pelo penta". E DAI? A sociedade brasileira já não aguenta mais ser vítima de bandidos que nos matam aos poucos a cada dia.
EU não aguento mais ter que sair de casa com medo, ter que voltar com medo, ter que olhar em volta para poder entrar na minha casa e deixar tudo trancado. EU não aguento mais ter que pedir que meu namorado telefone cada vez que chega em casa para saber que ele está bem. EU não aguento mais me preocupar quando minha mãe ou irmã se atrasam alguns minutos para chegar em casa. EU não aguento mais ter que andar apenas com uma cópia da identidade para não ter problemas se for assaltada (afinal, sempre me pergunto quando vou ser mais uma vítima dessa violência). EU não aguento mais abrir os jornais e ver notícias que eu não quero. EU não aguento mais ver isso na televisão, ouvir nas rádios.
Tenho ódio de quem fez isso com minha vó, tenho ódio de quem faz isso com qualquer pessoa. Hoje quem escreve aqui não é a menina feliz, mas sim uma pessoa de 20 anos que quer dar aos filhos um país descente, livre de pessoas desse tipo, livre desse lixo humano que estam aqui.
Sinto raiva do governo que não dá a mínima para o que acontece na nossa cidade, da polícia que se vende ao tráfico, das pessoas que aceitam essa condição de prisão que estamos vivendo atualmente no nosso país.
Desejo a morte desses bandidos, que todos eles sofram e que no final morram e deixe nossa população em paz, em liberdade!
Pena de morte? SIM! Que falta fará uma pessoa dessas no mundo? Uma pessoa que mata, que assalta, que aponta armas para pessoas indefesas nas ruas? Que morram todos eles e deixem a nossa vida em paz, porque eu não aguento mais ter que ter medo.